O poeta da página onze

Se já tivesse a certeza de tudo que aconteceria, não teria tardado a pegar um papel e uma caneta. A página onze ainda estava em branco. Não sabia pra quem escrever. Nas noites quentes de verão, o álcool foi quem escutou seus problemas, seus amores. As imagens que via eram apenas como ele gostaria que fosse sua vida. Do outro lado ninguém sabia da existência de um poeta. Ninguém sabia da existência das palavras. O sol foi aquecendo cada vez mais as folhas brancas que já mudavam de cor. Amarelas. A tinta da caneta pedia para sair. As palavras pediam para nascer. E o poeta só queria amar. A leveza das mãos e a entrega de si. As imagens que antes estavam presas na caixa, agora podiam ser vividas. E o poeta finalmente encostou seus lábios em outro. Suas mãos sujas de tinta puderam ser limpas com o suor. As palavras nasceram, o papel permaneceu.

E o poeta, enfim, escreveu sua página.

noite sem sono

Mais uma noite de difícil acesso aos sonhos.  Todos já dormem. Ele ainda não.

Uma garrafa de vinho branco no parapeito da janela.

Uma taça meio cheia.

Persianas parcialmente fechadas ainda possibilitam uma vista quadriculada do cenário.

No outro quadrado, uma luz que acende e apaga. Será uma TV?

Os carros, lá em baixo, passam numa velocidade que impede de se ouvir o que falam.

O frio e o céu limpo antecipam o orvalho branco do dia seguinte.

Geada que quebra a taça de vinho.

Luz que apaga a última gota no cálice beijado.

Uma mão arranca de quando em quando o álcool engolido por outro.

Batidas. Vozes. Gritos.

De volta ao quadrado primeiro.

Agora um abajur revirado. Amanha a cama desfeita

O som do motor faz jorrar água do chão.

Gotas de água limpa são levadas para a terra já molhada.

E lá, o cálice leva gotas de álcool a uma boca ressecada.

Vento da madrugada

Janela

Caminhava sozinho na madrugada cinzenta do inverno, pisando nas pedras úmidas e frias, via as folhas caindo das árvores e ficando presas no chão, que parecia consumir cada uma. O vento gelado corria por entre as ruas e cortava os traços da arquitetura e logo se deparava com as bochechas dele. As poças de água da chuva anterior refletiam o cinza do céu que ainda ameaçava chover. A cada folha que caia, parecia que alguém passava por ele e o olhava fundo aos olhos. O menino que mexia os dedos quando ouvia um som de piano flutuava cada vez que sentia uma nota musical produzida pelo vento que soprava e assobiava nos seus ouvidos. A poesia fazia parte dele. A arte do amor era o que mais queria encontrar, estava cansado da arte concreta. Telas, cheiro de tinta à óleo, pinceis, formas, movimentos. Estava cansado de tudo isso; queria viver o amor tão esperado. Cada vez que abria a porta de casa e colocava o rosto na rua, desejava encontrar alguém que o fizesse se sentir mais perto da arte que agora já lhe era tão importante: o calor do prazer. O calor já não subia por seu corpo fazia meses. O fogo parecia ter sido apagado na primeira rajada de vento forte daquele inverno. O que mais lhe comprometia nas suas ideias era o medo. Temia como uma criança no escuro. Chorava como um velho num asilo. Os seus pensamentos eram tão rápidos, tão ferozes, que a impressão que tinha era de terem sido roubados pelo vento frio que carregava cada ato de sua vida. Era como se cada ato fosse de extrema importância para a salvação de sua alma. Tinha medo de ser o que no seu sangue gritava com tanto fervor. Tinha medo de magoar quem o sempre lhe dera tanta confiança. Era uma criança, talvez já um velho. Não importa. Tinha um único desejo. Talvez mais tarde encontrasse um segundo ou terceiro, mas sempre esquecia qual teria sido o primeiro. O amor? Pode ser que sim. O frio da madrugada havia congelado até a sua mente. Nem ele entendia. Quando voltava pra casa, já nem sabia o motivo pelo qual havia saído. Pensava na existência de tudo que enxergava fora do seu mundo. Fazia promessas para encontrar a si mesmo. Falhava, refazia cada uma, desistia. E de novo se encontrava numa cama. Sozinho. Como um velho num asilo. Desistia da ideia de possuir a inocência de uma criança. Perdera fazia muito. Talvez, admirando a arte, teria deixado sua fragilidade em alguma obra francesa. Contentava-se em saber que tivera adquirido a vontade de amar. Magoava-se ao mesmo tempo por não haver – ou não saber – a quem. A madrugada era a sua amante fiel.

Máscara – Postagem Temática

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O vento fazia balançar as folhas que caiam uma a uma no chão frio de rocha bazalto. O velho homem caminhava de chapeu, bengala e seu casaco preto. Suas expressões eram tão crueis quanto a de um leão com fome que rasga a presa sem sentir dó. Caminhava todos os dias até seu trabalho, um lugar cheio de papéis e arrogância, onde as pessoas viviam seu mundo sem reconhcer suas máscaras.

O homem, na sua essência era humilde, mas se vestia de arrogância para poder viver. No trabalho, sentia uma forte necessidade de ser ele mesmo, mas quase sempre esse desejo era reprimido. Os outros, também tão cheios de máscaras, tentavam se ensconder no anonimato – uma outra forma de mascarar a realidade. Acreditavam no que viviam e nos seus personagens.

O homem, apesar de humilde, vivia um personagem que não era, para poder sobreviver. Belo ato.

Às vezes tido como arrogante, era apenas uma defesa. A máscara dependia do tamanho de quem a possuia. E ele possuia a humildade, porém, como uma flor, se defendia.

Le premier Bonheur du jour

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8h25 da manhã. Dia chuvoso, trovoadas. Uma dança de guarda-chuvas era o espetáculo na praça da flor lilás.

Entrou no café com uma fome matutina, desejava um café e um croissant. No balcão, fazia seu pedido à garçonete. Andou conferindo quem eram os fregueses daquele lugar. Era óbvio: artistas.

Sentou-se. Esperou o seu café. Na mesa ao lado uma presença humana o chamou atenção. Era impossível não reconhecer uma figura artística naquele dia.

O café chegara. Rasgou o sache de açúcar, despejou o conteúdo na taça. Levantou a colher e mexia circularmente. Do lado, a porção mágica de cor escura já havia sido tomado acompanhado de um Browne. No lugar do barulho da boca tomando o expresso, eram agora folhas amareladas sendo passadas. Linhas lidas. A obra se chamava O Olhar.

Era, definitivamente, artista.

Enquanto isso, na mesa ainda com café, o olho que acompanhava as mãos passando as folhas, entrava em contentamento por ver alguém lendo tal obra. Fellini, Antonioni, Monet, Manet. Todos reunidos em uma só obra.

Casaco apoiado em uma cadeira vazia. Guarda-chuva preso ao parapeito deixava a água escorrer pelo tecido vermelho quadriculado. Pingo a pingo. Enquanto goles eram tomados na mesa redonda, olhos revistavam a figura artística que lia na mesa quadrada. As duas figuras se olhavam. As duas obras se admiravam discretamente. As pálpebras subiam vagarosamente como quem quisesse saber quem os tivera pintado.

Enquanto lia sobre Manet, o outro ainda tomava a penúltima gota de café.

 A leitura acabara. O café ainda não.

Levantou-se, vestiu o casaco. Guardou seu livro. Pegou o guarda-chuva que molhava o assoalho.

 Na mesa redonda, ainda havia café.

Já do lado de fora, abriu seu vermelho quadriculado. Olhou piedosamente para o que ainda acordava.

“Desculpa, mas estou sem tempo”, deve ter sido esse o pensamento quando olhou com trejeitos.

“Merde!”, pensou o que ficou preso ao museu de telas pintadas.

Minutos depois, finalmente conseguiu se desprender da superfíce e agora a obra caminhava com seu guarda-chuva preto e all star branco encardido em direção a algum lugar que o levasse à arte. Àquela obra, especialmente.

Os pingos de chuva pareciam ficar cada vez mais intensos, os trovões continuavam. Se fosse mesmo uma obra pintada a óleo não teria sofrido tanto. Pisava nas poças de água na rua de paralelepípedos e seu tênis branco ficava cinza como aquele dia.

Correu. Olhou de um lado para o outro procurando uma obra de arte com guarda-chuva vermelho. Não achou.

Monet estava de vermelho quadriculado em alguma galeria de arte. Manet estava de preto e também molhado, a procura da tal lugar onde a obra pudesse estar.

As obras se despediram apenas com o olhar. O Olhar de quem pergunta quem teria os pintado.

O café esfriou e a obra continuava procurando seu pintor.

Os anjos de Mondrian

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A luz acendeu. Brutos passos no assoalho de madeira previam uma tensão. De longe, movimentos repetidos e ondulares. Via-se uma parte de pele humana naquela dança.
Ruídos estranhos fizeram aparecer longos cabelos loiros através da janela de Mondrian.
Unhas rasgando a pele. Mãos grossas acariciando a fúria.

Um cálice de vinho tinto.

Seios dançam no embalo dos movimentos. Pernas sobem e descem. 
Lençóis são puxados por ambas as mãos. Expressão de dor e prazer.

Mais um cálice de vinho tinto.

Lábios vermelhos, molhados, desejados. A expressão da dor volta à estética mínima do seio que dança. Agora não apenas o seio, mas também a barriga que detém, por enquanto, o suor vermelho que cai e molha os lençóis brancos.

Outro cálice de vinho tinto.

 Muda-se o ritmo e os passos da dança. Vermelho e sincronizado como o tango.
Não é tango.
Dentes brancos continuam mordendo os lábios.

O vinho acaba. O prazer continua. Gemidos ficam mais claros.
Não é tango.

Levantam-se nus.

Não, não é tango.

A luz apaga. A sombra dura e a penumbra da rua formam uma silhueta dos corpos no vidro de Mondrian.

Os movimentos continuam.

Sem vinho.

Gritos se esquecem de ficarem presos na boca que morde os lábios.

Cansaço. Exaustão. Gozo.

A luz acende. Corpos vestidos tomam conta dos que em minutos atrás estavam nus.
A janela de Mondrian, cenário para a aula dos anjos, agora era fechada.  

Tempo suficiente dos inocentes aprenderem a dançar.

Fumaça

Janela

Da minha                               janela eu posso ver a tua

 vida. Ordinária                   como a minha. Mas

a vejo.                             

Vejo                                       tuas expressões de

sentimentos castrados.

Vejo a                                   tua vontade de estar do outro lado da janela.

Ilusão.                                  Mera e

tola vontade                       que foge como a fumaça que sai

da tua boca.

o mágico e o engraxate

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usava um colete preto. na mesa a sua frente, uma parafernália de formas, truques e cores e um lenço vermelho.

usava pouca roupa. na mão, uma caixa com uma parafernália de texturas, cheiros e poucas cores. marrom e preto. uma flanela.

um era mágico. o outro também. um fazia desaparecer o sujo dos sapatos, o outro nem tanto.

na praça com o chão de mosaico preto e branco, as pessoas correm. deslizam sem perceber o jovem que faz mágica nos pés dos burgueses e o homem que faz desaparecer um lenço vermelho das mãos. um ensinando o outro como fazer a melhor mágica.
o mais jovem pensa na funcionalidade da mágica se pudesse fazer desaparecer o pão da padaria da esquina e  alimentar sua fome. o mágico-professor, pensa em como seria bom fazer aparecer dinheiro em seu bolso e parar de fazer mágica, onde nem mesmo os velhinhos que jogam xadrez com tampas de refrigerantes prestam atenção.
dia após dia, os mesmo mágicos, os mesmos velhos. pessoas deslizando, outras voando. e a mágica vai se tornando escassa e precária, servindo de ensinamentos só para quem a faz. um com o lenço vermelho, outro com uma flanela encardida.

será que existe algum truque para salvar a humanidade da loucura? e os doutores? estão satisfeitos com a mágica do engraxate ou só se divertem com o lenço que desaparecem ou o sujo que brilha?

Art

typotipsThe artist is the creator of beautiful things.
To reveal art and conceal the artist is art’s aim.
The critic is he who can translate into another manner or a new material his impression of beautiful things.

The highest, as the lowest, form of criticism is a mode of autobiography.

Those who find ugly meanings in beautiful things are corrupt without being charming. This is a fault.
Those who find beautiful meanings in beautiful things are the cultivated. For these there is hope.

They are the elect to whom beautiful things mean only Beauty.
There is no such thing as a moral or an immoral book or blog.

Books and Blogs are well written, or badly written. That is all.

The nineteenth-century dislike of Realism is the rage of Caliban seeing his own face in a glass.
                              The nineteenth-century dislike of Romanticism is the rage of Caliban not seeing his own face in a glass.

The moral of man forms paert of the subject-matter of the artist, but the morality of art consist in the perfect use of an imperfect medium. No artist desires to prove anything. Even things that are true can be proved.

No artist has the ethical sympathies. An ethical sympathy in an artist is an unpardonable mannerism of style.
No artist is ever morbid. The artist can express everything.

Thought and language are to the artist instruments of an art.
                  Vice and virtue are to the artist materials for an art.
From the point of view of form, the type of all the arts is the art of the musician. From the point of view of feeling, the actor’s craft is the type.

                                      All art is at once surface and symbol.
Those who go beneath the surface do so at their peril.
                                     Those who read the symbol do so at their peril.
It is the spectator, and not life, that art really mirrors.

                    Diversity of opnion about a work of art shows that the work is new, complex, and vital.
When critics disagree the artist is in accord with himself.
We can forgive a man for making a useful thing as long as he does not admire it. The only excuse for making a useless thing is that ones admires it intensely.

                                                                     All art is quite useless.

Dig deep inside yourself.

A sponger? You? Get out of here.
You’d die of shame if you had to ask a handout.
But no. No one could call you a reader.
Except for today, when you travel on your mind not wanting to pay and expect everyone else to dig deep into their pockets. Reading this blog is cheaper.

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