
8h25 da manhã. Dia chuvoso, trovoadas. Uma dança de guarda-chuvas era o espetáculo na praça da flor lilás.
Entrou no café com uma fome matutina, desejava um café e um croissant. No balcão, fazia seu pedido à garçonete. Andou conferindo quem eram os fregueses daquele lugar. Era óbvio: artistas.
Sentou-se. Esperou o seu café. Na mesa ao lado uma presença humana o chamou atenção. Era impossível não reconhecer uma figura artística naquele dia.
O café chegara. Rasgou o sache de açúcar, despejou o conteúdo na taça. Levantou a colher e mexia circularmente. Do lado, a porção mágica de cor escura já havia sido tomado acompanhado de um Browne. No lugar do barulho da boca tomando o expresso, eram agora folhas amareladas sendo passadas. Linhas lidas. A obra se chamava O Olhar.
Era, definitivamente, artista.
Enquanto isso, na mesa ainda com café, o olho que acompanhava as mãos passando as folhas, entrava em contentamento por ver alguém lendo tal obra. Fellini, Antonioni, Monet, Manet. Todos reunidos em uma só obra.
Casaco apoiado em uma cadeira vazia. Guarda-chuva preso ao parapeito deixava a água escorrer pelo tecido vermelho quadriculado. Pingo a pingo. Enquanto goles eram tomados na mesa redonda, olhos revistavam a figura artística que lia na mesa quadrada. As duas figuras se olhavam. As duas obras se admiravam discretamente. As pálpebras subiam vagarosamente como quem quisesse saber quem os tivera pintado.
Enquanto lia sobre Manet, o outro ainda tomava a penúltima gota de café.
A leitura acabara. O café ainda não.
Levantou-se, vestiu o casaco. Guardou seu livro. Pegou o guarda-chuva que molhava o assoalho.
Na mesa redonda, ainda havia café.
Já do lado de fora, abriu seu vermelho quadriculado. Olhou piedosamente para o que ainda acordava.
“Desculpa, mas estou sem tempo”, deve ter sido esse o pensamento quando olhou com trejeitos.
“Merde!”, pensou o que ficou preso ao museu de telas pintadas.
Minutos depois, finalmente conseguiu se desprender da superfíce e agora a obra caminhava com seu guarda-chuva preto e all star branco encardido em direção a algum lugar que o levasse à arte. Àquela obra, especialmente.
Os pingos de chuva pareciam ficar cada vez mais intensos, os trovões continuavam. Se fosse mesmo uma obra pintada a óleo não teria sofrido tanto. Pisava nas poças de água na rua de paralelepípedos e seu tênis branco ficava cinza como aquele dia.
Correu. Olhou de um lado para o outro procurando uma obra de arte com guarda-chuva vermelho. Não achou.
Monet estava de vermelho quadriculado em alguma galeria de arte. Manet estava de preto e também molhado, a procura da tal lugar onde a obra pudesse estar.
As obras se despediram apenas com o olhar. O Olhar de quem pergunta quem teria os pintado.
O café esfriou e a obra continuava procurando seu pintor.