
Caminhava sozinho na madrugada cinzenta do inverno, pisando nas pedras úmidas e frias, via as folhas caindo das árvores e ficando presas no chão, que parecia consumir cada uma. O vento gelado corria por entre as ruas e cortava os traços da arquitetura e logo se deparava com as bochechas dele. As poças de água da chuva anterior refletiam o cinza do céu que ainda ameaçava chover. A cada folha que caia, parecia que alguém passava por ele e o olhava fundo aos olhos. O menino que mexia os dedos quando ouvia um som de piano flutuava cada vez que sentia uma nota musical produzida pelo vento que soprava e assobiava nos seus ouvidos. A poesia fazia parte dele. A arte do amor era o que mais queria encontrar, estava cansado da arte concreta. Telas, cheiro de tinta à óleo, pinceis, formas, movimentos. Estava cansado de tudo isso; queria viver o amor tão esperado. Cada vez que abria a porta de casa e colocava o rosto na rua, desejava encontrar alguém que o fizesse se sentir mais perto da arte que agora já lhe era tão importante: o calor do prazer. O calor já não subia por seu corpo fazia meses. O fogo parecia ter sido apagado na primeira rajada de vento forte daquele inverno. O que mais lhe comprometia nas suas ideias era o medo. Temia como uma criança no escuro. Chorava como um velho num asilo. Os seus pensamentos eram tão rápidos, tão ferozes, que a impressão que tinha era de terem sido roubados pelo vento frio que carregava cada ato de sua vida. Era como se cada ato fosse de extrema importância para a salvação de sua alma. Tinha medo de ser o que no seu sangue gritava com tanto fervor. Tinha medo de magoar quem o sempre lhe dera tanta confiança. Era uma criança, talvez já um velho. Não importa. Tinha um único desejo. Talvez mais tarde encontrasse um segundo ou terceiro, mas sempre esquecia qual teria sido o primeiro. O amor? Pode ser que sim. O frio da madrugada havia congelado até a sua mente. Nem ele entendia. Quando voltava pra casa, já nem sabia o motivo pelo qual havia saído. Pensava na existência de tudo que enxergava fora do seu mundo. Fazia promessas para encontrar a si mesmo. Falhava, refazia cada uma, desistia. E de novo se encontrava numa cama. Sozinho. Como um velho num asilo. Desistia da ideia de possuir a inocência de uma criança. Perdera fazia muito. Talvez, admirando a arte, teria deixado sua fragilidade em alguma obra francesa. Contentava-se em saber que tivera adquirido a vontade de amar. Magoava-se ao mesmo tempo por não haver – ou não saber – a quem. A madrugada era a sua amante fiel.




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